rss search

next page next page close

Nascimento do Felipe da Tati (16/02/13)

Relato de parto da Tatiana Fernandes, nas palavras dela:

Não posso dizer que nossa luta foi fácil, também nem tão difícil. Sempre soube que seria mãe, independente se meu filho crescesse dentro de mim e isso sempre me deu muita força e esperança, pois sabia que de uma forma ou de outra, meu sonho de ter uma família seria realizado!


Tivemos que lidar com dificuldades, perda, mas superamos uma a uma e ficamos ainda mais unidos! Então a melhor notícia das nossas vidas veio de surpresa, quando descobrimos que nosso tão desejado filho estava a caminho. Eu já estava com 6 semanas de gestação e ouvir seu coração batendo foi uma emoção indescritível, a primeira foi particularmente especial, afinal foi assim que descobrimos que ele estava a caminho, um momento mágico! Mas a cada consulta, sempre que ouvia seu coração bater me emocionava e me enchia de felicidade e paz!

Com 15 semanas descobrimos que era um menino, nosso Felipe!! A gestação foi bastante tranquila. Não tivemos nenhum problema, Felipe cresceu e se desenvolveu muito bem e meus exames sempre apresentaram resultados excelentes. A partir de 30 semanas os desconfortos surgiram… cansaço, inchaço, insônia, dores nas costas. Sintomas que muitas grávidas sentem, mas o mais importante era que o Felipe estava ótimo!

Desde antes de começar a tentar engravidar, pensava em ter meu filho de parto normal, a não ser que uma cesárea fosse realmente necessária, claro. Acho que essa ideia foi plantada pela minha mãe, que teve 2 partos normais e uma cesárea e sempre disse que os partos normais foram muito melhores. Claro que isso aconteceu há mais de 30 anos e que os procedimentos para a cesárea evoluíram muito, fazendo com que hoje as cesáreas sejam procedimentos mais tranquilos e a recuperação muito mais fácil. Mas isso não mudava meu pensamento de que um parto normal seria melhor, principalmente para meu bebê.

Aos poucos fui percebendo as dificuldades para ter um parto normal e comecei a me interessar pelo assunto. Hoje a informação pode ser encontrada facilmente, mas não cabe aqui entrar em detalhes dessa questão. Esse assunto acabou se tornando um pouco desagradável para mim, pois os comentários sobre minha escolha por um parto normal por vezes eram desagradáveis e desnecessários, então comecei a tentar evitar o assunto. Sempre respeitei a decisão de amigas e conhecidas sobre isso, sem críticas, sem invasões e intromissões. E em diversos momentos gostaria que minha opinião/decisão tivesse simplesmente sido respeitada, assim como me esforcei para respeitar a de outras pessoas, mesmo quando não concordava.

Conforme a gravidez avançava, aumentava minha insegurança com relação a essa questão do parto e se eu conseguiria ter o papel que eu gostaria no nascimento do meu filho. Ou se como tantas mulheres acabaria fazendo uma cesárea desnecessária contra a minha vontade. Li muito a respeito, conversamos com pessoas de diversas opiniões, fizemos curso de gestante na maternidade, ouvi e li muitos relatos de parto. Algumas coisas me encantaram, outras me assustaram e tudo isso só ajudou na minha decisão. Queria um parto normal hospitalar, com direito a anestesia caso eu sentisse necessidade (apenas analgesia, para que pudesse me movimentar e conduzir meu trabalho de parto), mas sem outras intervenções que não fossem necessárias. Queria participar e sentir o nascimento do meu filho da forma mais tranquila possível, amamenta-lo assim que ele nascesse e não ser separada dele e do Gui minutos após seu nascimento.

E então minha insegurança foi virando realidade. Infelizmente o direito de escolha da mãe só prevalece para aquelas que optam por fazer uma cesárea. Adorava meu obstetra, estava sendo muito bem assistida e tendo um pré-natal que pouquíssimas mulheres tem o privilégio de ter, mas numa consulta de rotina (com quase 32 semanas) percebi que as chances de ter um parto normal eram muito pequenas e mesmo que eu conseguisse, os procedimentos adotados por ele estavam muuuito longe do que eu havia imaginado. Fiquei bem triste, não sabia como lidar com a situação, confiava e respeitava muito o trabalho dele. Não queria ser radical, para mim o mais importante era o nosso Felipe, não queria que uma idealização minha viesse antes da saúde e do bem estar dele. Foi uma decisão difícil, mas resolvemos buscar uma segunda opinião, conversar com um profissional que tivesse outro ponto de vista. Só queria ter a certeza de que estaria fazendo o melhor para nosso filho tão desejado.

Através de uma amiga, que é doula, conseguimos um encaixe com uma médica especialista em parto humanizado para a mesma semana. Levamos uma lista de perguntas e bombardeamos ela com nossas dúvidas e inseguranças, acho que até exageramos um pouco… e cada palavra dela foi tranquilizadora. No mesmo momento não tivemos dúvidas de que seria através dela e da equipe dela que nosso Felipe chegaria ao mundo, exatamente como sonhamos, mesmo no caso de uma cesárea ser necessária. Eu não tinha medo de fazer uma cesárea e nem ficaria frustrada, caso fosse necessário. Mas precisava ter a certeza de que estaria fazendo o melhor para nosso filho e esse sentimento só veio por completo após essa consulta.

Com 35 semanas tivemos uma ótima notícia, nossa amiga doula, que ainda estava amamentando seu bebê de 3 meses (na data prevista do parto ele estaria com 4 meses), se ofereceu para nos ajudar no parto! Fiquei muito feliz e isso me deu mais segurança e tranquilidade. Ao mesmo tempo que queria uma doula, estava bastante indecisa por ter que lidar com mais uma pessoa estranha, afinal teríamos pouco tempo para nos familiarizar com toda equipe médica. As conversas com nossa amiga doula foram essenciais e esclarecedoras e a cada conversa ficava mais segura e tranquila.

Nas últimas semanas de gestação mergulhamos no mundo do parto humanizado. Passamos em consultas com toda a equipe, lemos, assistimos videos, participamos de encontros de gestantes e a cada dia estávamos mais felizes e seguros com nossa decisão! Na reta final a ansiedade para a chegada do nosso Felipe foi aumentando, uma ansiedade gostosa de curtir, sem medos e inseguranças, apenas a vontade de ver nosso filho, de viver esse momento!

Completei 40 semanas na terça-feira de carnaval e a ansiedade crescia a cada dia, mas Felipe não dava nenhum sinal de querer sair da barriga. Na quarta-feira tivemos consulta com a nossa obstetra, estava tudo ótimo, mas ainda nenhum sinal, nada de contrações, dilatação. O tempo estava bastante quente e os inchaços estavam incomodando bastante, desci alguns dias na piscina do prédio para caminhar na água para tentar aliviar os inchaços e quem sabe dar uma forcinha para o trabalho de parto iniciar. Na quinta-feira, após seguir a dica da amiga doula de andar de cócoras comecei a perder o tampão. Mas sabia que o trabalho de parto ainda poderia demorar alguns dias para iniciar.

Já estava ficando difícil controlar a ansiedade, então segui a sugestão da amiga doula e marquei uma sessão de acupuntura para sexta-feira, por enquanto nada para estimular o trabalho de parto, apenas para eu relaxar um pouco. Foi ótimo e o Gui disse que eu fiquei zen depois da acupuntura. O Gui tinha passado a semana todinha comigo, mas tinha uma reunião de trabalho das 17:00-19:00. Afff, quem marca uma reunião de sexta-feira nesse horário?? O Gui saiu de casa 16:15 e eu estava com um pouco de sono, coloquei uma música tranquila (mais precisamente Bach), deitei no sofá e cochilei um pouco. Acordei com uma cólica bem leve, fui para cama tentar dormir, mas não consegui. Por volta das 18hs voltei para sala, fiz um lanchinho e coloquei uma seleção de músicas que havia montado para o Felipe com músicas que eu e o Gui gostamos, tentei relaxar cantando para o Felipe e então a cólica foi intensificando. Ainda estava em dúvida se estava realmente em trabalho de parto, estava esperando alguma sensação diferente na parte superior do útero e a dor nas costas, mas a única coisa que sentia era uma cólica forte na parte bem baixa da barriga. Às 19:20 liguei para o Gui e nessa hora já estava achando que o trabalho de parto estava se iniciando. Ele tinha acabado de sair da reunião e estávamos desabastecidos de algumas coisas básicas na despensa, então disse que estava com uma cólica forte e pedi para ele passar rapidinho no mercado e voltar para casa.

Depois que falei com o Gui o negócio engrenou de vez e eu já não tinha nenhuma dúvida que estava em trabalho de parto. As cólicas, contrações, iam e voltavam cada vez mais fortes, mas ainda nada da dor nas costas. Fiquei enjoada e coloquei o lanche que tinha comido para fora. Lembrei da dica da amiga doula, que o chuveiro ajudaria muito nessa fase inicial. Fui para o chuveiro e realmente foi ótimo. Eu não tinha a menor ideia de qual era o intervalo e a duração das contrações, mas algo me dizia que o trabalho de parto estava indo rápido. O Gui chegou em casa 20:30 e eu estava no chuveiro. Ainda não tínhamos ideia de como estavam as contrações e o Gui sabia que era importante eu me alimentar na fase inicial do trabalho de parto, para ter energia na fase mais difícil. Ele chegou todo animado querendo fazer tapioca, mas eu não conseguia pensar em comer nada, ele tentou insistir, mas eu não queria mesmo. Acho que ele não imaginava me encontrar naquela situação, pois também estava esperando uma evolução mais lenta do trabalho de parto. Não lembro se eu pedi ou se foi iniciativa dele de ligar para amiga doula, só sei que isso me tranquilizou. Ele começou a marcar as contrações com o aplicativo do celular e ficou surpreso quando viu que as contrações estavam durando quase 1 minuto com intervalos de apenas 2 minutos. Depois de uma hora ele ligou para a amiga doula e ela achou melhor ir para casa.

Antes da amiga doula chegar, saí do chuveiro e fui para a bola. Nessa hora as massagens do Gui só eram confortáveis entre as contrações e eu já sentia a dor nas costas. A amiga doula chegou por volta das 22:30 e já tinha falado com a nossa obstetra, que recomendou irmos para a maternidade. O processo de preparação para sairmos de casa foi meio lento, esperamos o Gui carregar o carro e eu conseguir me trocar. Nessa hora as contração já estavam bastante intensas e frequentes e era quase impossível ficar em pé. Saímos de casa às 23:30 e chegamos na maternidade pouco antes de meia noite. Essa foi a parte mais chata, o transporte para a maternidade e a espera para passar pela triagem, pois tive que esperar mais de meia hora na recepção.

Finalmente passamos pela triagem, tudo ótimo com o Felipe e eu já estava com 6-7 cm de dilatação! Nossa, estava mesmo indo muito rápido!! Durante os exames da triagem a bolsa rompeu. Lembro de ter comentado “se aguentei as contrações na recepção da maternidade, acho que aguento sem anestesia dentro da banheira… rs”. Subimos rapidinho para a sala de parto humanizado, que felizmente estava disponível (só havia uma na maternidade). Logo que chegamos a amiga doula foi encher a banheira e rapidinho eu já estava dentro d`água… que delícia! O Gui perguntou se eu queria que ele entrasse e eu quis… a partir desse momento ele não saiu do meu lado por nenhum segundo! Naquele ambiente com pouca luz, água quente e o Gui do meu lado era realmente muito mais fácil lidar com as contrações, que iam ficando cada vez mais intensas. Lembro das massagens, de apertar a mão do Gui a cada contração, das palavras de conforto e incentivo da amiga doula, do cansaço, da entrega…

E então chegou o momento em que eu achei que não fosse mais aguentar. A obstetra me examinou e eu já estava com 9 cm de dilatação, estava quase!! Lembro que consegui raciocinar de que aquele não era um bom momento para pedir anestesia, faltava muito pouco e talvez até o anestesista chegar o pior já teria passado. Além disso eu teria que sair da banheira e não queria pensar na possibilidade de ter que sair de lá com as contrações tão fortes. Disseram que logo as contrações iriam melhorar e eu esperei que melhorassem. Mas não melhoravam, vinham cada vez mais fortes… e então eu senti uma pressão, falei para o Gui, a obstetra ouviu e disse que era a cabecinha do Felipe descendo. Depois de uma ou duas contrações eu senti ele descendo e falei “acho que ele está chegando”!!!! E realmente estava… a obstetra disse “olha, o cabelinho!” e falou para eu e o Gui sentirmos. Veio a próxima contração ela pediu para eu fazer força, em 3 ou 4 contrações saiu a cabecinha. Mais uma contração e saiu o ombrinho e ele nasceu!!! No momento mais mágico e incrível de nossas vidas nosso filho tão desejado estava no meu colo!!! Felipe nasceu às 3:00hs, ótimo e lindo, mal chorou… ficou no meu colo as próximas duas horas!! Não poderia ter sido mais perfeito e especial!!!!

Mas infelizmente meu relato de parto não termina aqui. O trabalho de parto havia sido rápido, tranquilo, meu períneo estava íntegro (tive apenas uma pequena laceração superficial), mas minha placenta não queria sair. Esperamos um bom tempo e nada. Tomei uma injeção de ocitocina e nada. Depois de duas horas, a obstetra disse que eu precisaria tomar uma anestesia, pois ela iria ter que tirar a placenta e era um processo dolorido. Puxa, que droga!!! Tinha tido um parto perfeito, sem nenhuma intervenção, o Felipe nasceu do jeito que sonhamos e agora teria que passar por tudo o que tinha evitado? Sim, não teve jeito. Lembro de ter ficado bastante nervosa, o ambiente do centro cirurgico não é nada acolhedor. Mas o tempo todo o Felipe e o Gui estavam lá do meu lado! O procedimento foi tenso, perdi bastante sangue e precisei de transfusão. Mas felizmente deu tudo certo. Só à noite percebi a gravidade do que havia acontecido e que eu corria o risco de perder o útero. Se tivesse feito uma cesárea esse risco seria maior ainda!

O desfecho do parto não foi exatamente como esperávamos, mas contratempos acontecem. E ter durante todo o tempo o Gui e o Felipe ao meu lado foi essencial! Mas o mais importante foi que a chegada do nosso menino foi tranquila e especial como havíamos sonhado, ou ainda melhor. Não é comum ocorrer esse tipo de problema e podem ter algumas explicações, mas para mim a explicação pode ser simples, nosso Felipe foi tão desejado e o vínculo dele comigo era tão forte, que nosso elo de ligação não queria ser rompido!

Felizmente tivemos a sorte e a oportunidade de mudar nossa história. Seremos eternamente gratos à toda equipe que nos acolheu e principalmente ao casal de amigos que nos apoiou tanto num momento de fragilidade e insegurança. Estamos muitos felizes por termos vivido e sentido da forma mais intensa a chegada do nosso filho!”


next page next page close
thumbnail Freedom for Birth zoom
next page next page close

LAURA GUTMAN NO BRASIL – EU VOU!

Pela primeira vez no Brasil, Laura Gutman estará em Florianópolis dia 01/09 e em São Paulo dia 02/09 para o seminário “O poder do discurso materno”.

É autora de livros como “A Maternidade e o Encontro com a Própria Sombra”, “Crianza, violencias invisibles y adicciones” e “La revolución de las madres”, que exploram o universo da maternidade, os vínculos familiares e as dinâmicas violentas aos quais os seres humanos estão submetidos.

Desde 1996, formou mais de 300 educadores, médicos e profissionais em geral, objetivando construir uma nova visão acerca do problema da violência social e oferecer ferramentas concretas para assumir, com maios consciência, o trabalho que compete a cada um de nós na criação de um mundo menos violento e mais humano.

O seminário terá duração de 4 horas e é dirigido a mães, pais, professores, educadores, psicólogos, psicopedagogos, assistentes sociais, profissionais da saúde, profissionais das ciências humanas e todos aqueles que desejam contribuir para um mundo mais amável.

Mais informações em www.lauragutmannobrasil.blogspot.com.

Alunas, gestantes, amigas, ex-alunas que agora estão no pós-parto ;-)

Vale a pena!!


next page next page close

Marcha do Parto em Casa – 17/06/2012

Esse final de semana foi histórico para aqueles que de alguma maneira se envolvem pela luta da humanização do parto. Aconteceu em mais de vinte cidades do Brasil, entre sábado e domingo, a Marcha do Parto em Casa. Uma manifestação em defesa do direito de escolha da mulher, pela humanização do nascimento e a NÃO violência obstétrica no Brasil. Em São Paulo a marcha aconteceu no domingo, dia 17, na Paulista e cerca de 1500 pessoas entre mulheres, gestantes, homens, crianças e bebês ergueram cartazes e pintaram barrigas. Foi emocionante!

Aqui vai um resumo cronológico dos acontecimentos para ficar mais fácil de entender.

Domingo, 10/06/2012 – foi ao ar no programa do Fantástico da Globo uma matéria sobre parto domiciliar humanizado. Essa matéria surgiu a partir de um vídeo lindo de um parto domiciliar em Campinas, acompanhado de parteira obstetriz, doula e pediatra. Esse vídeo teve milhares de acessos em poucos meses. Na matéria do Fantástico o obstetra paulista Jorge Kuhn apoia o parto domiciliar como um local seguro para o nascimento em gestações de baixo risco.

Segunda, 11/06/2012 – o Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro (Cremerj) divulgou um nota dizendo que entraria com uma denuncia ao Dr. Jorge ao Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp) por estas declarações.

Ao longo dessa semana, então, nas redes sociais e internet começou a mobilização e organização para as manifestações. Com apoio de entidades como a ReHuna (Rede pela Humanização do Parto e do Nascimento), Parto do Principio (Mulheres em Rede pela Maternidade Ativa), GAMA (Grupo de apoio a Maternidade Ativa), Primaluz (Parteiras Contemporâneas) e Casa Moara mais de 1800 pessoas, através do facebook, se mobilizaram para o final de semana.

Domingo, 17/06/2012 – em São Paulo cerca de 1500 pessoas sairam do Parque Mario Covas na Avenida Paulista e caminharam até a frente do prédio do Cremesp na Consolação. Muitos cartazes, muitas crianças, bebês e muitas barrigas pintadas unidos na luta por nossos direitos. Foi especial poder participar com um pequeno bebê em meu ventre e uma filha vestindo a camiseta “eu nasci em casa”.

 Fotos por Tati Wexler.


next page next page close

Janet Balaskas de volta ao Brasil

Janet Balaskas, autora do livro Parto Ativo e criadora do conceito de mesmo nome voltou ao Brasil para mais uma série de cursos, workshops e palestras. Esse ano é o seu segundo por aqui e ao longo do mês de abril ela passou pelo Rio de Janeiro e Curitiba. No Rio aconteceu o módulo I do curso de formação em Parto Ativo. Como eu fiz esse módulo no ano passado fui só para Curitiba onde aconteceram os módulos II e III.

E foi uma semana de muita troca e aprendizado. O módulo II foi chamado “Ensinando Parto Ativo” e nós aprendemos com detalhes como levar para os casais as principais informações na busca pelo parto fisiológico e como uma experiência positiva e transformadora. Mais uma vez o diferencial do curso esta na maneira como abordar as principais questões como a dor e o medo, a nomenclatura que é usada para explicar o processo do trabalho de parto e a forma como colocar que um parto pode ser uma experiência natural e bela. O último dia do curso foi uma espécie de estágio e nós assistimos um workshop ministrado pela própria Janet para casais grávidos. Foi muito bacana observar as reações dos casais e o acolhimento e carinho com ela os tratou. Conheci muitas mulheres interessantíssimas, com belas histórias pra contar e muita risada pra compartilhar.

O módulo III aconteceu em São Luiz do Purunã, que fica na região metropolitana de Curitiba. Esse módulo era específico para professoras de yoga que pretendem trabalhar com yoga e parto ativo. Um lugar lindo, comida maravilhosa e muito yoga. Foram mais três dias de muita troca e aprendizagem. Estar no curso e grávida foi mais do que especial. Deu pra “sentir na pele” a maneira como ela lida com a gestante durante a pratica. E mais uma vez o acolhimento e carinho fizeram a diferença.

Agora é só acertar os últimos detalhes de certificação e em breve começarei a dar workshop de Parto Ativo e yoga parto ativo ;-)

E pra quem se interessar no site do Parto Ativo Brasil tem todas as informações importantes. Em 2o13 ela estará de volta!


next page next page close
thumbnail Camila Reitz em Ustrasana zoom
next page next page close
next page next page close

Dia Internacional da NÃO-violência contra a Mulher

Ahimsa, que falei um pouquinho neste post, é um dos cinco yamas (preceitos morais, considerados junto com os nyamas a base ética do yoga) que fala sobre a não violência. Ahimsa significa não causar dano , não ser violento, mas pode ser traduzida como compaixão. Segundo a ética do yoga, o ser humano é capaz de transformar sua natureza e evoluir por meio de atos compassivos.

Amanhã, 25 de novembro, é o Dia Internacional da não-violência contra a Mulher e as meninas dos blogs Mamíferas e Parto no Brasil propuseram uma blogagem coletiva em prol do fim da violência obstétrica. Nessa semana mesmo saiu essa matéria na Folha Online, dizendo que o governador de São Paulo vai apurar uso de algemas em parto, em resposta a denúncia feita no dia 18 de que presas são mantidas algemadas durante o trabalho de parto e parto. Lendo essa reportagem parece claro que essas mulheres são mau tratadas. Porém a violência contra a mulher em trabalho de parto e parto é muito mais comum do que muitas pessoas imaginam, inclusive nós mulheres, e vai muito além da agressão física. Tantos em hospitais da rede publica quanto em hospitais particulares os relatos de violência e maus tratos são inúmeros.

Nós mulheres devemos exigir o direito de sermos respeitadas e bem tratadas tanto pelos profissionais que nos atendem como pelas instituições. É no mínimo triste pensar que uma mulher em um momento tão delicado, sensível e frágil como o parto possa sofrer tantos maus tratos e violência. A não permissão (que é um direito por lei) de um acompanhante que ela escolha e confie, a falta de assistência quando ela solicita, a quantidade excessiva de exames de toque, a falta de explicação sobre os procedimentos que serão realizados, episiotomia desnecessária, cesárea desnecessária, separação de mãe e bebê após o nascimento são só alguns exemplos. Ou você nunca ouviu uma história de alguma mulher que foi obrigada a ficar calada durante as contrações para conseguir ser atendida? O mais triste é que essas mulheres aceitam esse tratamento como algo normal, que sempre foi assim e assim tem que ser.

Uma querida amiga, há alguns anos atrás, entra em uma maternidade luxuosa de São Paulo em franco trabalho de parto em busca de um parto normal. Entra na sala de triagem com o marido para ser examinada. Enfermeira olha pra ela, olha pra ele e diz: xi, mãe branca e pai negro não nasce de parto normal…

Uma mulher em trabalho de parto deve ser respeitada, tratada com carinho e palavras apoio. Qualquer mulher que ja passou por um trabalho de parto sabe o quanto pode ser agressiva e violenta uma “simples” frase como essa.

A doutoranda em Saúde Coletiva, Ligia Moreira Sena, lança amanhã o convite para sua pesquisa que vai investigar a ocorrência de desrespeito, maltratos e violência no pré-parto, parto e pós-parto na visão de mulheres que foram atendidas em instituições de saúde. No blog dela, o cientista que virou mãe, tem mais informações para quem quiser.

B.K.S Iyengar diz que “ahimsa é não-violência, não só no sentido restritivo de abster-se de matar ou cometer atos violentos, mas no sentido positivo e abrangente de um amor por toda a criação”. Então uma mulher em trabalho de parto deveria ser acima de tudo amada por quem assiste seu parto, em sua manifestação real e concreta de criação, dar a luz a uma vida!

“Quando a não violência [em pensamentos, palavras ou ações] estabiliza-se firmemente, as atitudes hostis cessam em sua presença”

Yoga Sutra de Patanjali (tradução Pedro Kupfer, 2004)


next page next page close

Mantra OM

O termo mantra deriva da raiz verbal sânscrita “Man”, pensar, ter em mente e do sufixo “Tra” que é usado para a formação de substantivos que designam instrumento ou ferramenta. Um mantra é portanto uma ferramenta que proporciona a mente o poder de se concentrar e se purificar elevando o estado de consciência. De maneira geral, existe a noção genérica de que o mantra é uma sílaba, palavra ou sequência de palavras e sílabas com o objetivo de reestabelecer a atenção e elevar a mente a uma faixa vibratória específica. Para Swami Sivananda, “a repetição do Mantra elimina a impureza da mente.”

OM é uma síbala sagrada, o símbolo de Brahman, o Ser Absoluto. Também é o símbolo universal do Yoga, um som ou vibração que representa o universo como uma totalidade. É celebrado em diversas filosofias e religiões porém se originou na filosofia hindu. É formado pelo pelo ditongo das vogais a e u, e a nasalização, representada pela letra m. Por isso é que, às vezes, aparece grafado Aum.

Diz-se que o mantra OM contém todo o conhecimento dos Vedas, o poder sobre a matéria, a consciência do espaço e do tempo, do presente, do passado e do futuro. É considerado o corpo sonoro de Brahman, a partir do qual todo o univesro se forma. É a vibração primordial, o som do qual emana o Universo, a substância essencial que constitui todos os outros mantras, sendo o mais poderoso de todos eles. Ele é o gérmen, a raiz de todos os sons da natureza. Por essa origem divina e essencial, o mantra OM figura como o começo, o meio e o fim.

Namastê


next page next page close

Nascimento da Lavínia da Sabine (28/03/11)

É PRECISO ENLOUQUECER PARA PARIR
Por Sabine, mãe de Lavínia

Quando criança brincava de boneca e todas faziam força para nascerem seus bebês, até que um dia eu soube que para fazer um bebê nascer a mulher precisava tomar uma injeção na coluna. Desde então, guiada pelo medo da tal injeção, fantasiava minhas bonecas desmaiando quando o bebê ia nascer e, ao acordar, adivinhem, o bebê magicamente aparecia em seus braços.
Anos mais tarde, ao cursar a faculdade de Psicologia, tive a oportunidade de, em uma aula, assistir a um documentário sobre uma parteira alemã que ajudava mulheres brasileiras a terem seus filhos em casa. Os partos eram bonitos, emocionantes e, acima de tudo, livres: as mulheres tinham seus filhos como fosse melhor, adotando diferentes posições. Com esta mesma professora conheci o livro ‘Nascer Sorrindo’ de Fréderick Leboyer e todo um novo universo se abriu. O mais curioso é que este universo não trazia nada de novo pois tudo o que girava dentro dele era absolutamente natural. Sabe quando a gente lê um texto novo e tudo que está ali parece que já conhecíamos, justamente porque o autor expressa idéias que temos mas ainda não formulamos? Pois foi assim que comecei a conhecer o parto humanizado e pensei “se isto de bom existe, quero para mim”. Anos depois, já formada, assisti ao documentário ‘Parto Orgásmico’ seguido por um debate sobre a apropriação do corpo feminino pelas ciências médicas, e de como as mulheres perderam sua intimidade com o corpo, aceitando se subjugarem a tal conhecimento.

Já casada e desejosa de engravidar passei a visitar alguns sites de parto humanizado e li relatos de mulheres que trouxeram seus filhos à luz de forma natural e ativa. Consultei alguns obstetras do meu convênio médico em busca de um que trabalhasse com parto natural, foi catastrófico: o primeiro deu um corte na minha idéia ameaçando “você aceitaria colocar seu filho em risco?” bem, eu diria que ele deu uma cesárea na minha idéia de parto sem intervenções. O segundo foi mais atencioso, ministrou uma aula sobre o parto natural, mas fazia episiotomia como procedimento de rotina. Ou seja, parto natural pero no mucho.
Ao engravidar já sabia que médico procurar e fiquei feliz e aliviada quando, na primeira consulta, ele me perguntou “O que você acha se eu disser que não faço partos, quem faz é a mulher, apenas estou junto para ajudar se for preciso”, eu lhe respondi ser isto o que sempre esperei ouvir de um médico.

Na gravidez estudei bastante, li livros sobre o assunto, visitei sites, fiz yoga para gestantes, tive uma doula. Já havia aprendido algo muito importante com meus pacientes mais velhos: “É preciso fazer por onde”, o que neste caso significa: não basta querer um parto normal ou ativo, a mulher precisa trilhar o caminho, ter conhecimento sobre seu corpo, as mudanças da gravidez que o preparam para a grande hora, o que ocorre no parto, confiar em sua capacidade natural de gerar e parir um filhote humano, exercitar sua respiração, quadril e períneo, bem como ter fé, senão em Deus, então na Natureza, que há milhares de anos faz com que os bebês humanos nasçam do ventre de suas mães como tantos outros mamíferos. É preciso aprender a lição de que um parto ativo é, antes de mais nada, uma atitude mental, uma convicção interna de que é esta a forma de nascer e estamos preparadas para isso. Ouvi de uma pessoa que gosto muito – minha analista – ao lhe contar desejar um parto ativo e natural, que eu ainda não tinha percebido que este parto já tinha começado, pois minha gravidez estava sendo assim, vivida plenamente, e o parto seria a coroação deste processo.

Já na fase de enjôos pude compreender algo: o desconforto físico me comunicava uma lição fundamental, a de que ser mãe seria muito bom, mas que não seria só maravilhas, eu não deveria me iludir, pois estava sendo avisada que também teria de agüentar alguns desconfortos e chatices. Quando entendi isso, lidar com aquele enrosco no estômago foi mais tranqüilo e, como vomitei muito pouco, nem tomei medicação.

Algumas experiências foram marcantes ao final da gestação: a vinda da doula Marcelly em casa, para conversar comigo e meu marido sobre os diferentes tipos de parto e as características de um parto ativo, os cuidados como bebê, a amamentação e recomendou, a respeito do parto, “Entregue-se ao incontrolável”. E também em uma das últimas consultas obstétricas, ao conversar com o Dr. JK sobre o nascimento do bebê de uma colega da yoga, ouvi dele “Adoro parto em que não preciso fazer nada, quando a mulher faz o parto, é um empoderamento feminino”. Fiquei com isso na cabeça e me lembrei de minha avó, analfabeta mas com uma sabedoria de vida, que teve sua segunda filha apenas na companhia do filho de 2 anos, pois meu avô tinha saído para buscar a parteira.

Agora vou contar como foi o meu parto: completei 37 semanas de gestação numa sexta-feira e na madrugada da segunda para a terça tive algumas contrações, que não evoluíram. Ao clarear o dia já tinham se dissipado. Lembrei da aula que tive com a doula dias antes e compreendi que foram pródromos, um ensaio do útero para o parto. Conversei com Marcelly que me orientou a ficar atenta, descansar bastante e ligar se surgisse alguma novidade. Completei 38 semanas e no final da manhã de domingo as contrações leves voltaram, achei que eram novamente os pródromos. Li meus e-mails, fiz os cartões com a poesia que iria acompanhar as lembrancinhas, conversei ao telefone com uma amiga, tomei banho e fui almoçar com meu marido Marcelo num restaurante. Almoçando percebi que as contrações estavam ficando mais longas, freqüentes e fortes. Lembrei do que a doula havia me dito: os pródromos costumam passar com banhos quentes, e as contrações do parto irradiam para as costas. Avisei meu marido e passamos a contar as contrações a partir das 15 horas. Foi engraçado, cena de cinema: ele começou a comer muito rápido, perguntando se era hora de ir para a maternidade. Calmamente lhe respondi: “Coma tranqüilo porque isso ainda vai demorar, saindo daqui vamos à farmácia que quero comprar algumas coisas e depois ligo para Marcelly”.

Ao chegar em casa ainda estendi no varal a roupa que tinha lavado e, às 17h telefonei para a doula. Ela disse ter grande chance de passarmos a madrugada na maternidade, sugerindo que eu tentasse dormir e ligasse dali 3 horas. Foi o que fiz. Marcelo estava atento e a postos, e também tranqüilo porque, com a doula, ele sabia que não precisava pensar quando tinha de ir ao hospital: assistiu ao jogo de futebol e ainda um pouco dos programas esportivos. Às 22h Marcelly veio para minha casa e minha mãe já tinha vindo também. As contrações estavam mais fortes e eu agachava ou ficava de cócoras, pois isso me aliviava. Todos se alternavam para massagear minha lombar durante a contração, o que era bastante reconfortante. A doula recomendou que eu comesse um lanche para estar bem disposta para o trabalho de parto, foi o que fiz. À meia noite disse para Marcelly que queria ir logo para a maternidade pois sentia que ali não conseguiria relaxar (moro no ABC e a maternidade era em São Paulo, por isso minha preocupação com o trajeto). Ela me sugeriu que tentasse ficar mais um tempo em casa, ir para o chuveiro, entendi o que ela me sugeria, pois sabia que quanto próximo do parto chegasse ao hospital, melhor. Mas sabia, pelo meu corpo, que precisava me sentir livre e despreocupada para me entregar ao parto.

Bem, fomos ao hospital, Marcelly dirigiu o carro e Marcelo foi no banco de trás comigo, sempre que vinha uma contração eu sentava de joelhos no banco, voltada para trás, e ele massageava minhas costas. O exame de admissão aconteceu perto da 1h da manhã, as contrações eram moderadas e eu estava apenas com um dedo e meio de dilatação. Após mais de sete horas tendo contrações, quantos médicos vocês conhecem que já partiriam para uma cesárea? Ou então mandariam a mulher de volta para casa? Pois bem, Dr. JK pediu para fazer minha internação no quarto e que eu tomasse uma injeção de buscopan, pois aliviaria as dores e não interferia no ritmo do trabalho de parto.

É incrível como somente a mulher sabe o que está acontecendo e o que é melhor para si. A doula foi para casa e fiquei no quarto com meu marido e minha mãe. Pouco antes das 4h a enfermeira veio ver minha dilatação e já estava com seis dedos. Na sexta-feira anterior havia estado em consulta quando o médico constatou que eu estava com um dedo de dilatação. Em quase nove horas de contrações dilatei apenas meio dedo e, em menos de três horas dilatei quatro dedos e meio. Ao me sentir segura pude me entregar para o parto e viver esta grande loucura. A enfermeira ligou para o médico e meu marido avisou a doula, que logo chegou.
Na sala de parto a enfermeira perguntou se eu desejava ir para a banheira, ao que aceitei prontamente. Sempre gostei de água e sentia que seria bom estar imersa nela. Das 4h às 6:30h cheguei em dez dedos de dilatação. Este período para mim foi meio confuso pois a memória é toda enevoada: vocalizava nas contrações, quase que cantando relaxadamente, como um mantra, para contrabalançar com as forças vindas do útero. A doula e meu marido estavam sempre juntos de mim, tranqüilos, fazendo massagem nos meus ombros ou pés entre as contrações, quando às vezes eu dormia e sonhava.

Segurava (entenda-se: apertava) as mãos de meu marido nas contrações; sua presença, força e calma foram fundamentais para mim a todo momento. Em certa hora ajoelhei, debruçada na borda da banheira, e agradeci a Deus por sua proteção durante toda a gravidez, pedi que continuasse ali, nos protegendo e abençoando. Meu marido fez o Sinal da Cruz em minha testa. Foi algo muito poderoso.

Saindo desse transe transcendental, comecei a ficar com sede e tomar Gatorade foi ótimo. Dei uma bronca no médico, gritando para Marcelly “Cadê o JK que não chega?” Engraçado, ele já estava na sala ao lado. Bem, quando fiquei com sede e brava soube que estava entrando no período expulsivo, cheia de adrenalina. JK ouviu o coração de Lavínia que estava bom e fez o toque, perguntei se eu poderia sentir também, ele aprovou e eu pude tocar a bolsa, que minutos depois se rompeu. Sabe quando a gente era criança e fazia guerra de bexiga cheia d’água e ela estourava ‘puft’? Então, foi isso que senti, só que vindo de dentro de mim. Líquido transparente, sinal de que tudo estava correndo bem. Fiz o toque em mim também e senti na ponta do dedo que Lavinia era cabeludinha.

Para algumas mulheres este período é mais rápido, para outras mais lento. Meu período expulsivo durou duas horas e depois entendi o motivo: era a parte que eu tinha mais medo. Bem, nele eu gritei bastante, berro tipo montanha-russa e o bom foi que ninguém ficou constrangido ou com dó de mim. Meu marido, solidário e atencioso até disse “Me avisa se não tiver agüentando mais”, esta frase não fez o menor sentido para mim. O clima era de descontração entre as contrações. Numa delas eu gritei, a plenos pulmões “Puuuuutaaaaa que pariiiiiiiiiiiiiiuuuu” depois brinquei “Não sou puta, mas tô parindo” e todos rimos juntos. Até o Dr. JK fez uma brincadeira e depois explicou ao meu marido “Só estou brincando porque está tudo bem, se não, eu estaria sério”.

Ah, e meu marido não escapou de uma bronca, coitado. Ele já estava há horas acordado de madrugada, sem comer e sentado num banquinho. Durante uma contração do expulsivo eu o procurei no banco e não o achei, ele estava em pé ao lado, eu só conseguia enxergar suas pernas, tal como nos desenhos animados, tipo a empregada do Tom e Jerry ou a Babá dos Muppets Baby. Sinalizei com a mão para ele ir ao banquinho, ele se posicionou na frente, em pé. Fiz com a mão gesto para que ele se sentasse. Ele não sentou pois não havia entendido. Passada a contração falei, bem brava “Eu sei que você está cansado, mas acredite, eu estou mais que você!!!” Ô dó, o que os homens têm de agüentar nessas horas! Refletindo sobre este momento, entendo que meu estado de entrega ao parto era tamanha que eu já havia perdido a capacidade de perceber o mundo ao meu redor como um todo. Minha visão e minha apercepção (maneira como subjetivamente se apreende os estímulos externos) estavam completamente fragmentadas, por isso não consegui simplesmente olhar mais para o alto para encontrar o rosto de Marcelo. Este estado de coisas é similar a uma experiência psicótica, ou seja, a um momento de loucura. E faz todo o sentido as drogas naturais do corpo liberadas neste momento ajudarem a criar este transe. De que importa para a mulher que está parindo o mundo lá fora se todo o mundo é sentido como estando dentro dela? Sinto que tudo o que há de valor no universo estava dentro de mim naquele momento: minha filha estava se esforçando, trabalhando para nascer, ali, junto a mim. Por isso me brotou na cabeça a frase “É preciso enlouquecer para parir”.

Neste estado de loucura o Dr. JK disse poucas, precisas e preciosas frases. A primeira foi um aviso, uma preparação: “Olha, você vai sentir uma dor que vai achar que vai rachar no meio, não se preocupe, é assim mesmo”. Ele me disse com tanto carinho, com tanta cautela que fiquei olhando… Sabe quando a gente se apaixona por alguém e nem ouve direito o que ela fala, só ficamos olhando com muita ternura? Pois bem, neste momento beijei sua bochecha com todo meu coração, muito grata pelo seu zelo.

Passado este momento, vinha acompanhando pelo toque a descida lenta de Lavínia e pensei “Por que será que ela não está nascendo? Será que estou preparada para ter um bebê em meus braços, fora da barriga?” Pensei, senti, me entreguei: eu estava vestindo um top o tempo todo, então o tirei e disse para mim mesma “Sim, eu quero um bebê nos meus braços, mamando em meus seios”. Eu estava muito na horizontal, submersa na água. A doula e meu marido já haviam sugerido fazia um tempo, que eu ficasse de pé, no chuveiro. Resisti, então Dr. JK avisou que estava dando duas horas de expulsivo e talvez fosse bom pensar em sair da água, ir para a cama. Rapidamente fiquei em pé, no chuveiro, eu é que não queria sair da água pois, além de estar gostoso ali, achava que era a forma mais suave de Lavínia fazer a transição do útero para a vida aqui fora, bem como achava que preservaria mais o períneo. Dr. JK me orientou a fazer uma respiração em que eu fazia força e disse a outra frase precisa “É isso mesmo, você está indo bem”. Quando fiquei na vertical lamentei que naquela posição eu não conseguiria pegar o bebê e Dr. JK falou que o pai pegaria, então meu marido brincou “E se eu frangar?” Todos rimos. Pouco antes de Lavínia coroar o médico me guiou “Você pode achar que não vai conseguir, mas vai, está indo tudo certo”.

Eu ficava em pé, segurando numa barra enquanto a água do chuveiro descia sobre minhas costas. Então, na contração eu empurrava e vinha descendo até a banheira, me soltava e aí meu marido me segurava pelos ombros. Numa destas a cabeça de Lavínia começou a sair, mais uma contração e saiu. Dr. JK sugeriu que eu fizesse mais um pouco de força para nascer o ombro. Então todo seu corpinho nasceu, ele a pegou e trouxe rapidamente para meu colo. Indescritível o poder desta experiência. Eu a tomei em meus braços e gentilmente lhe disse: “Então era você que estava aí dentro? Tava gostoso? Não queria largar o bem-bom da barriginha da mamãe?” Eu, mamãe, com L. em meu colo, o papai atrás de mim, acolhendo a ambas. Lavínia deu três choramingos, não berrou nem se assustou, em meu colo, ouvindo meu coração – ritmo tão conhecido para ela – sentindo meu cheiro, minha pele, no vai-e-vem da minha respiração, Lavínia ficou quieta, aninhada no único lugar que ela deveria estar neste primeiro momento de vida.

Lavínia nasceu com o olho aberto, como todos os bebês que nascem na água, no trajeto de minha barriga para meu colo seu olhar encontrou o do pai. Ele foi a primeira pessoa que ela viu na vida. Fiquei muito feliz de meu marido ter esta exclusividade, um momento apenas dos dois.
Após uns cinco minutos desta magia, deste momento eternizado, Dr. JK sugeriu que eu fizesse força para expelir a placenta. Empurrei e foi muito suave, após a saída de um bebê a placenta parecia um algodão doce, afinal não tinha osso nenhum. Então Marcelo, agora pai, cortou o cordão umbilical, que estava intacto, fornecendo suprimento extra de oxigênio. Meu marido ficou com nossa bebê quando ela foi para o berço térmico enquanto eu me levantei para passar uma água no corpo. Estava me sentindo tão disposta que pedi xampu para lavar os cabelos. Obviamente que não me deram e sugeriram que eu fosse logo para a cama. Lá o Dr. JK me examinou e disse “períneo íntegro, nenhuma laceração”. Que felicidade! Posso afirmar que até hoje em minha vida não tenho a cicatriz de nenhum ponto, mesmo depois de um parto.

Dra. Sr, a pediatra humanizada da equipe (que é a médica da Lavínia atualmente) a trouxe em meus braços para mamar. Que bonitinha mamando, tão nova e já sabia o que fazer. O nascimento foi às 8:30 da manhã e ficamos juntos até às 10h, quando Lavínia adormeceu. Minha filha não foi importunada com colírios nem injeções: não recebeu colírio de nitrato de prata pois eu não tenho gonorréia, a vitamina K foi dada em três doses orais ao invés de uma injeção, e sua tipagem sangüínea foi feita pelo sangue do cordão umbilical. Tudo foi feito com muito respeito pela nova habitante deste mundo, fomos todos bons anfitriões da vida.

Depois de todo o trabalho de parto, de tantas contrações, eu não conseguia me recordar delas, meu corpo e minha mente não têm memória das contrações. Não saberia descrever como começa e como termina uma contração. O médico depois me contou serem os hormônios do parto amnésicos. Senti-me ativa, disposta e disponível para minha filha o tempo todo. Paguei à vista, não tive nenhuma prestação com a dor depois. Até o termo dor eu questiono, pois não é sofrimento e sim uma força tão grande que me fez gemer.

Se alguém me perguntar quem fez o parto de minha filha posso dizer, com muito orgulho: fui eu, ajudada por pessoas importantes, meu marido, meu médico, minha doula.

Lavínia está se desenvolvendo muito bem, é tranqüila, segura, alegre, risonha, mama exclusivamente ao peito em livre demanda, não sabe o que é chupeta, toma banho de balde e passeia de sling por todos os lugares. E a chegada dela em nossas vidas nos tornou, a mim e a meu marido, mais cúmplices e enriquecidos. A escolha por este tipo de parto não é uma escolha qualquer, como escrevi anteriormente, acredito que é preciso fazer por onde. Esta é uma opção de gestação, de parto, de criar um filho e de ser pais. Nunca me senti insegura como mãe, tenho dúvidas, afinal elas fazem parte de uma possibilidade de reflexão. Assim como fui capaz de gestar e trazer à luz minha bebê, sei que saberei como cuidar dela.

E tem mais um ponto importante para finalizar o relato de minha experiência e descobertas: a pediatra solicitou que minha bebê ficasse apenas 1 hora no berçário ao invés das tradicionais 6 horas. Passadas duas horas e meia que L. estava longe de mim, liguei no berçário e avisaram que iriam ficar com ela por mais um tempo, na hora falei: “Tive minha filha num parto natural sem anestesia e não fiz isso para ficar longe dela, não terei qualquer problema em ir aí buscá-la!”. Rapidamente a trouxeram para mim e aí vem o moral da estória (sim, a extinta palavra estória e não história): NUNCA, MAS NUNCA MESMO, DUVIDEM DE UMA MULHER QUE MERGULHOU NA LOUCURA PARA TRAZER A VIDA DE SEU PRÓPRIO FILHO À TONA.


next page next page close

Yoga e o parto

A pratica do yoga busca a conexão consigo mesmo, auto-conhecimento, um olhar para dentro… tudo que precisamos durante a gestação e o parto. Sobre os aspectos físicos, alivio de dores musculares e desconfortos respiratórios são alguns dos benefícios que podemos citar da pratica de yoga durante a gestação. Entretanto, os benefícios não se limitam a gestação. Ao longo das aulas a mulher tem a oportunidade de conhecer algumas posições ou movimentos que podem auxiliar muito durante as contrações e o parto em si. Na verdade toda gestante que fica livre para se movimentar durante o trabalho de parto busca por si só movimentos que a deixem mais confortável. Porem o contato com o yoga traz um repertório de posturas que ela “acessa” com mais facilidade durante o processo, ou seja, é como se ela ja soubesse o que precisa fazer com o corpo para aliviar a intensidade das contrações. Essa segurança física, de saber o que fazer, traz um conforto psicológico e emocional. Ela se sente mais confiante para enfrentar a jornada de um trabalho de parto. Além dos asanas (posturas) o yoga tem outra ferramenta valiosa que são os pranayamas. Falando resumidamente, são exercícios respiratórios que ajudam o yogue a controlar a mente. Conhecer sua própria respiração e saber como mante-la tranquila faz toda diferença na hora do parto. Quando conseguimos respirar calma e profundamente alcançamos aquele contato com nosso corpo, nossa mente e nosso momento. Controlando a respiração também conseguimos conter a tensão e o medo, que são fatores que aumentam, literalmente, a dor durante o trabalho de parto. Assim é possível parir com mais facilidade. Conseguimos nos soltar para deixar fluir, sem controlar, sem ansiar. Toda mulher sabe parir, seu corpo foi desenhado para isso. Basta que ao longo da gravidez essa mulher tenha certeza disso e pratique muito yoga ;-)

“Enquanto a respiração (prana) for irregular, a mente permanecerá instável…” Hatha Yoga Pradipika.


next page next page close
next page

Nascimento do Felipe da Tati (16/02/13)

Relato de parto da Tatiana Fernandes,...
article post
thumbnail Freedom for Birth article post

LAURA GUTMAN NO BRASIL – EU VOU!

Pela primeira vez no Brasil, Laura...
article post

Marcha do Parto em Casa – 17/06/2012

Esse final de semana foi histórico...
article post

Janet Balaskas de volta ao Brasil

Janet Balaskas, autora do livro Parto...
article post
thumbnail Camila Reitz em Ustrasana article post

Reflexões sobre a maternidade

Reflexões sobre a...
article post

Dia Internacional da NÃO-violência contra a Mulher

Ahimsa, que falei um pouquinho neste...
article post

Mantra OM

O termo mantra deriva da raiz verbal...
article post

Nascimento da Lavínia da Sabine (28/03/11)

É PRECISO ENLOUQUECER PARA PARIR Por...
article post

Yoga e o parto

A pratica do yoga busca a conexão...
article post
thumbnail Janet Balaskas em São Paulo article post